domingo, 11 de setembro de 2011

Artesã

Pôs-se a fazer artesanato com seu tempo mais precioso:
Da beleza,
Da descoberta,
Da utopia.
Fiava seu destino,
Como fosse velha,
Como fosse deusa,
Como fosse possível!
As linhas embaraçadas
Iam, vinham, encruzilhavam-se sem oferendas.
Seu momento de espanto encontrou-se com o susto do amor.
Paciência e disciplina na hora de colocar as contas...
Que contas?
Como fosse uma,
Como fosse duas,
Como fosse matemática!
Não tinha dom pra artesã,
Conseqüentemente comprava um destino pronto
na loja das convenções.
Como fosse possível!

terça-feira, 6 de setembro de 2011


A Lombriga e o esfomeado
Estava o menino descalço andando no meio do nada com dores na barriga, ele não sabia o nome daquilo, mas sentia aquilo, parou, agachou-se e de repente saia dele, de dentro pra fora, aquela coisa esguia e comprida reclamando da vida:
Lombriga – Que coisa mais feia, olha o jeito que você me trata, logo eu que te acompanho por todo lugar que você passa, logo eu que sinto as mesmas dores que você. Preciso de alimento, estou com fome, eu sou uma lombriga e desejo comer tudo que vejo, é assim que o povo fala né? Quero um delicioso pão caseiro, um cheiroso feijão, uma paçoca!
Falava com sonhos nos olhos, lambendo seus lábios enexistentes, e o menino se desculpava ali mesmo agachado:
Esfomeado – Desculpa você sabe o quanto eu gosto de você, meu bichim querido, mas acontece que não tem nada pra comer em casa, já pedi pro papai e chorei pra mamãe, mas nada de nada, lá só tem poeira nas gavetas e ar no armário.
A lombriga não se comovia com a lamentação do garoto e continuava a falar:
Lombriga – Eu quero comer, dá um jeito, você consegue dormir, eu fico lá dentro me contorcendo de fome, isto não é vida não, o mundo é injusto mesmo, umas barrigas tão cheias de comida e sem lombriga nenhuma, quero já reforma agrária das sem barriga cheia.
Falava com entusiasmo de um revolucionário, enquanto o esfomeado a olhava apaixonado, ela falava o que ele sentia, falava da fome da injustiça.
Esfomeado – Olha minha lombriguinha eu te deixo partir, vou sentir sua falta, ficar sozinho no mundo com um vazio maior ainda na barriga, mas entendo que você tem que partir, mas lembre-se que eu te amo e sempre te amarei.
Ela o olha com desprezo e sorri com sarcasmo ao se despedir:
Lombriga – amor não enche barriga, nem dá de comer a lombriga...adeus.

Barbara Teodosio

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Moradia da menina que ria...vazia

Iria falhar...
Não, iria falar!
Viria a calhar:
Armar uma lira que mia a sina da menina que ria.
Iria contar...
Não, iria sondar!
Viria a somar.
Ficar em sua fila,
Fria.
Acertar a mira,
Birra!
Brincar de vigia.
Iludia...
Iria estraçalhar todas as medidas,
As fudidas e as ungidas.
Viria matar.
Limpar as feridas.
Amar as punidas.
Catar as apodrecidas.
Seria um pomar.
Uma vila vencida.
A cidade crescida.
Uma casa vazia.
Visita insista em conhecer toda a moradia:
Iludida, fudida,ungida,crescida,punida,apodrecida,vencida,crescida e
Vazia.

Barbara Teodosio


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Copa do Mundo de Slam 2011



Vídeo que mostra a trajetória da brasileira Roberta Estrela D´alva na 8°copa do mundo de poesia falada onde ela foi premiada em 3° lugar. Algumas boas poesias que são encontradas no vídeo.

...quando termina a noite corpos e cabelos estão emaranhados, os quadris dão uma trégua...

...a voz passeia pela beira em meio a ondas de concreto...

Ela esta sentada
A menos de um quarteirão de distância de mim
Bem na esquina, num tapete sujo de folhas
E pedaços de bambu
Seu sorriso
Me faz imaginar que anjos realmente descem do paraíso
Para iluminar os nossos tristes dias
Com a luz dos seus raios de sol celestiais
Eu choro lágrimas de dor e raiva por ela
Porque sei como ele a rasga e despedaça
Estupro? É a coisa mais distante da mente deste branco doente
Que ama enfiar sua pica em Asiáticas
Eu gostaria de enfiar algo nele como uma faca
Ou até mesmo a idéia de como deve ser
Ter sua dignidade roubada de você como um ladrão na noite
Ouça, talvez eu não estivesse tão puto
Se ele não tivesse comprado os meus serviços também
Logo depois dos dela


...mulher é puta, gay não é gente, o que importa é o dinheiro...


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Iguais



Beijos não têm idade;
Arrepios não vêem beleza;
Atração não pergunta sobrenome;
Excitação não julga aparências;
Tesão não tem endereço;
Carinho não exige diploma;
Paixão não pede currículo.
Na horizontal somos todos iguais,
Primitivos animais!

Barbara Teodosio

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Regra de Gramática: Todo verbo que é conjugado na primeira pessoa do singular dói mais


sábado, 13 de agosto de 2011

Autores: Ferreira Gullar


Ferreira Gullar
Nova Canção do Exílio

Minha amada tem palmeiras
Onde cantam passarinhos
e as aves que ali gorjeiam
em seus seios fazem ninhos
Ao brincarmos sós à noite
nem me dou conta de mim:
seu corpo branco na noite
luze mais do que o jasmim
Minha amada tem palmeiras
tem regatos tem cascata
e as aves que ali gorjeiam
são como flautas de prata
Não permita Deus que eu viva
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias
que se escondem em seus carinhos
sem me perder nas palmeiras
onde cantam os passarinhos


Estranheza do Mundo

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto "para quê"?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A outra moça


Em uma manhã de começo de semana a moça como um zumbi se dirigia até o trabalho. Com cabelo mal prendido deixava umas mechas soltas pela face, olhos ainda remelados se espremiam durante o bocejo.
Tinha ares de boa noite mal dormida, soava grave seu “bom dia”, no intervalo contava sobre seu sonho maluco da noite passada interpretando as aparições dos bichos e objetos fálicos.
Olhava esta moça, tão nova e tão viva, imaginava o que ela tinha de especial, porque chamava tanta atenção? Por instantes viajei no tempo e vi a moça, não esta presente, mas a outra moça, a do passado, a moça relâmpago de anos atrás.
Aquela moça que de tão bonita não precisava de meus elogios... Ela andava se olhando... Aquela moça que nunca mais vi nem soube noticias.
Ela ficou congelada em minha lembrança quase que intocável, sei que ela ainda me visita nas noites, sei que ela se encontra em minha memória.
Ah elas não dão a mínima! Estas moças são assim : Ao andar se admirando não reparam nos olhares julgadores dos outros, que as recriminam por ser tão elas: Moças de pé no chão!

Barbara Teodosio

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Quando eu desanimo com a vida
me animo a inventar histórias...
uma cor,
formas,
som,
odores,
minutos...
só mais uns minutos e já passa...
as horas voam.
os dias fogem.
o mundo muda!
Você trabalha com o que?
Eu não trabalho,
eu brinco com sonhos!