domingo, 13 de maio de 2012

Indecisão Feminina

Ó indecisão feminina.
Ela não sabia o que queria:
unhas vermelhas com calcinha cor de pele.

Olhar Intimidador


Olhar intimidador
nos tímidos olhos intimados.
Tímida dor calada
no baixar das pálpebras,
no fechar dos lábios.
Entrelaçados os corpos é terminado o ato.

Olhar íntimo
Nos despertos olhos remelados
Tímida dor contada
Então vêm as falas temidas
de esperanças reprimidas.
Palavras bonitas, repetidas, ditas, repetidas, tidas.

Trama o nariz nos cabelos
Dá-se um cheiro e vai-se embora

Sem drama
Sem enrola
Sem cama

Barbara Teodósio

domingo, 6 de maio de 2012

Lendo Sartre



Escolher-se
É
Escolher/Ser
É escolher-se ser

Chegará a grande vez


Irá zelar a queda a lembrança que sempre está.
Irá velar a ida a presença que partirá.
Esvaecerá no frio das horas
na distância dos dias,
na morte do tempo.
Chegará a grande vez:
Espairecerá no sono o sonho que contará
de pessoas fictícias,
nas histórias  vencedoras,
com as mentiras adequadas.

Barbara Teodosio

domingo, 29 de abril de 2012

Pequenos contos de Ana: À Borboletar

Ana anda numas novas ondas.
Esta cada vez mais moderninha esta Ana.
Saiu do casulo e foi acasalar-se com a liberdade das asas, coloridas e brilhantes, agora ela é a mais bonita de todas as Anas.
E não venha o passado bater a porta, ela foi viajar por boas novas.
Não foi o que ela encontrou no caminho, não, é que Ana se encontrou a caminho.
Borboleteia na aquarela das flores, sem bem-me-quer/mal-me-quer, é só querer ficar pra poder estar.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Parafraseando João Cabral de Melo Neto com meu amigo Junior no facebook

Começa assim:

O Teatro comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O teatro comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O Teatro comeu meus cartões de visita.O Teatro veio e comeu todos os papeis onde eu escrevera meu nome.
O  Teatro comeu meus finais de semana, comeu minha paz, comeu minha solidão.O Teatro se lambuzou do meu desejo e aprecia minhas doses  de alegria. O Teatro comeu minha inocência, minha honra e toda a decência.O Teatro vomitou minha intransigência e minhas mesquinharias...
O Teatro me comeu, me come e que me coma.
E o Teatro me deixou em coma...


quinta-feira, 5 de abril de 2012

O que o retrovisor uniu a seta há de separar


Tarde vazia pede uns DVDs, feriado pede estrada, após encher o tanque vem um sms com boas novas, som nas alturas e sinal fechado. Olhar para o retrovisor, olhos no retrovisor, sinal fechado, olhares no retrovisor, sorriso no retrovisor, sinal fechado, seta ligada, olhar, sorriso, sinal aberto... Ele vira, ela segue, ele acena, ela percebe sua seta ligada indicando o caminho errado. AAAaaaHHH imundice de seta.
...Triste final é aquele que não existiu...

quarta-feira, 28 de março de 2012

Ana e seu TOC


Ana estava atrasada, este é seu terrível defeito feminino, pega a bolsa e sai às pressas prendendo o cabelo com uma caneta.
Tem aquela sensação de haver esquecido alguma coisa, volta à casa, desliga as luzes, confere o gás e tranca a porta virando a chave duas vezes.
 Enquanto segue o caminho para o trabalho sem pisar nas linhas da calçada, imagina ... ele abrindo a porta com seu cigarro entre os dedos e a casa, os móveis, o insuportável vídeo game,TUDO INDO PELOS ARES.

OBJETO

O toque lhe desperta :
TRIMMMM!
Desperta Dor

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sinto Muito


Já estava feito!
No começo não tinha pretensão nenhuma, mas com o passar do tempo tornou-se algo tão sublime que ela não soube como lidar, então veio o impulso de arremessar o presente contra a parede.
... Ela nunca soube lidar com o presente...
Sentiu o poder de jogar tudo fora em suas mãos e não recuou, após o ato recolhia com toda a calma do mundo os cacos do chão, pensou que alguém poderia se machucar e esta culpa ela não queria carregar, vidros quebrados tem formas pontiagudas tão bonitas e o sangue é quente e pulsa pra fora do corpo ardentemente como os arrepios que dão na coluna ao sentir os espíritos.
...Ela arrepiava toda vez que os mortos apareciam para lhe visitar...
Era um vidro de perfume de outra época, antigo, pertencia à outra pessoa, sua avó, aquela que lhe batia com a ponta da colher de pau toda vez que ela sujava a roupa ao brincar com os meninos da rua.
...Desde sempre os meninos gostavam de brincar com suas partes...
O perfume tinha um nome engraçado “Saudade” o seu cheiro doce inebriava o quarto a ponto de sufocar, lembrava da dificuldade em respirar toda vez que sua avó passava o perfume pelos pulsos, calcanhares e nuca para ficar a janela esperando seu avô chegar.
... Saudade a sufocava a ponto de desmaiar...
Era um presente que seu avô havia enviado da Europa quando foi servir o exército na Segunda Guerra Mundial, ela pegava um caixote e ficava do lado da sua avó esperando, até que a falta de ar fosse tanta, que desmaiava no colo da velha que a colocava na cama para sonhar.
...Seu avô vinha lhe beijar a testa todas as noites...
Ela não conheceu seus pais pessoalmente, mas não fazia mal porque Seu avô lhe dava doces após a missa comprados na venda do Seu Zé, doce de abóbora era o melhor, vermelho assim como o sangue que saia de seu pulso e inundava o chão, doce como a presença da morte.
...A morte é uma velha conhecida sua...
O pai tinha morrido do coração meses antes de fugir com sua mãe que morrera no parto, coisa que sua avó dizia ser bem feito, afinal sua mãe era mulher leviana e mal exemplo a criança.
...Os pais sempre vinham lhe puxar as pernas...
Ao entrar naquele quarto para pegar as roupas pra avó que estava morta no hospital, viu uma carta na primeira gaveta da cômoda que seu avô contava do suicídio que iria cometer na frente de batalha no canto do frasco do perfume havia um bilhete escrito “Sinto Muito”.
...Sentir muito era um velho hábito do avô...
Em seu ultimo suspiro ali no chão, junto aos cacos do frasco, as palavras da carta e ao cheiro sufocante da saudade ela esperava pelo avô e seus beijos na testa e via a imagem da sua avó vindo lhe buscar com uma colher de pau nas mãos.

Barbara Teodosio