O Teatro comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O teatro comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O Teatro comeu meus cartões de visita.O Teatro veio e comeu todos os papeis onde eu escrevera meu nome.
O Teatro comeu meus finais de semana, comeu minha paz, comeu minha solidão.O Teatro se lambuzou do meu desejo e aprecia minhas doses de alegria. O Teatro comeu minha inocência, minha honra e toda a decência.O Teatro vomitou minha intransigência e minhas mesquinharias...
Tarde vazia pede uns DVDs, feriado pede estrada, após encher
o tanque vem um sms com boas novas, som nas alturas e sinal fechado. Olhar para
o retrovisor, olhos no retrovisor, sinal fechado, olhares no retrovisor,
sorriso no retrovisor, sinal fechado, seta ligada, olhar, sorriso, sinal aberto...
Ele vira, ela segue, ele acena, ela percebe sua seta ligada indicando o caminho
errado. AAAaaaHHH imundice de seta.
Ana estava atrasada, este é seu terrível defeito feminino,
pega a bolsa e sai às pressas prendendo o cabelo com uma caneta.
Tem aquela sensação de haver esquecido alguma coisa, volta à
casa, desliga as luzes, confere o gás e tranca a porta virando a chave duas
vezes.
Enquanto segue o
caminho para o trabalho sem pisar nas linhas da calçada, imagina ... ele abrindo a porta com seu cigarro entre os
dedos e a casa, os móveis, o insuportável vídeo game,TUDO INDO PELOS ARES.
No começo não tinha pretensão nenhuma, mas com o passar do tempo tornou-se algo tão sublime que ela não soube como lidar, então veio o impulso de arremessar o presente contra a parede.
... Ela nunca soube lidar com o presente...
Sentiu o poder de jogar tudo fora em suas mãos e não recuou, após o ato recolhia com toda a calma do mundo os cacos do chão, pensou que alguém poderia se machucar e esta culpa ela não queria carregar, vidros quebrados tem formas pontiagudas tão bonitas e o sangue é quente e pulsa pra fora do corpo ardentemente como os arrepios que dão na coluna ao sentir os espíritos.
...Ela arrepiava toda vez que os mortos apareciam para lhe visitar...
Era um vidro de perfume de outra época, antigo, pertencia à outra pessoa, sua avó, aquela que lhe batia com a ponta da colher de pau toda vez que ela sujava a roupa ao brincar com os meninos da rua.
...Desde sempre os meninos gostavam de brincar com suas partes...
O perfume tinha um nome engraçado “Saudade” o seu cheiro doce inebriava o quarto a ponto de sufocar, lembrava da dificuldade em respirar toda vez que sua avó passava o perfume pelos pulsos, calcanhares e nuca para ficar a janela esperando seu avô chegar.
... Saudade a sufocava a ponto de desmaiar...
Era um presente que seu avô havia enviado da Europa quando foi servir o exército na Segunda Guerra Mundial, ela pegava um caixote e ficava do lado da sua avó esperando, até que a falta de ar fosse tanta, que desmaiava no colo da velha que a colocava na cama para sonhar.
...Seu avô vinha lhe beijar a testa todas as noites...
Ela não conheceu seus pais pessoalmente, mas não fazia mal porque Seu avô lhe dava doces após a missa comprados na venda do Seu Zé, doce de abóbora era o melhor, vermelho assim como o sangue que saia de seu pulso e inundava o chão, doce como a presença da morte.
...A morte é uma velha conhecida sua...
O pai tinha morrido do coração meses antes de fugir com sua mãe que morrera no parto, coisa que sua avó dizia ser bem feito, afinal sua mãe era mulher leviana e mal exemplo a criança.
...Os pais sempre vinham lhe puxar as pernas...
Ao entrar naquele quarto para pegar as roupas pra avó que estava morta no hospital, viu uma carta na primeira gaveta da cômoda que seu avô contava do suicídio que iria cometer na frente de batalha no canto do frasco do perfume havia um bilhete escrito “Sinto Muito”.
...Sentir muito era um velho hábito do avô...
Em seu ultimo suspiro ali no chão, junto aos cacos do frasco, as palavras da carta e ao cheiro sufocante da saudade ela esperava pelo avô e seus beijos na testa e via a imagem da sua avó vindo lhe buscar com uma colher de pau nas mãos.