sábado, 16 de abril de 2011

Autores: Carlos Drumond de Andrade.

...Boa-Tarde (ensaio de bom-noite,variante de bom-dia,que tudo é o vasto dia em seus compartimentos nem sempre respiráveis e todos habitados enfim.)

A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas,
consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horasda tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.



sábado, 9 de abril de 2011

tempo de tragédia particular

Tirei férias de mim!
Assim que voltei... Sai.
Resolvi pedir demissão.
- Que tal um tempo a sós?
pelo tempo perdido na vida.
Tragédias sempre há, nós as intuímos em nossas visões.
Meses fora do ar.
“Lembranças pelos bons tempos.”
Há tragédias clássicas no jornal,
um dia será nossa vez
e não estaremos na página principal.
Estivemos fora de nós... Por tanto tempo...
Cuidado! O mundo continua igual,
as mesmas histórias,
as mesmas perseguições!
E aqui esta tudo diferente.
A vida anda bem, bem longe...
Passaremos os restos de nossos dias á nos distanciar.
Tragédias são minhas prediletas,
Nesta há um bom vilão, um casal puro, loucura e internação.
O tempo passa, o tempo pesa, o tempo leva.
São só pesadelos durante a noite,
É só a vida durante o dia...
Um dia a vida passa...

domingo, 3 de abril de 2011

Nas curvas da corcunda...

Talvez o peso da incompetência humana esteja em suas costas,
nesta suja carne calejada que se encurva ao ajoelhar-se ao chão.
Não há nada de santo nestes joelhos dobrados.
A dignidade escondida nas sacolas pretas em que caças a sobrevivência de um dia a mais,
não é bela,
nem exemplo.
Ao menos aos ladrões e assassinos resta o nobre ato da ira,
da revolta,
e da luta!
Isto também não é exemplar,
mas incomoda estes cristãos puros das missas aos domingos,
diferente de tu, sujo corcunda, que só limpa a miséria humana de seus restos supérfluos.
Tenho leve paixão pelas marginais ondas do rio querido Brecht!



Barbara Teodosio


"Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem" de Bertolt Brecht

domingo, 27 de março de 2011

Meu Humor Anda Variando da Cabeça!

Meu humor anda variando da cabeça!
de uma pra outra
de outra pra uma.
 
É um corpo desconexo,
sem nexos,
com sexos que varia
vacila.
Criar um mundo de contar eras e vez,
De uma vez que era,
Daquela história que fez.
Eras uns universos de possibilidades.
Vez de diversas histórias.
 
Será que existe?
Ou é só imaginação?
 
Seres assim tão fortes, de tantas cabeças, saindo de braços cruzados e pernas marcadas!
Ah...não, é só mais da mesma diversão, desejando a outra vida desencanada
Encantadas com nadas...
A vida é resquício do que meu amigo?
Estais a falar de quais benefícios?

Barbara Teodosio e Jvnivs Cæsar

quinta-feira, 17 de março de 2011

Hoje meu dia foi salvo

Hoje eu pedi aos céus para que algo me tirasse do lugar onde me encontrava, e desejei não sentir coisas tão feias, quis desistir e queimar todos os meus livros.
Não estou acostumada a pedir aos céus, então esperei a sua resposta, sem esperança...
E eis que...
Hoje meu dia foi salvo, e posso sentir o gosto doce destas últimas horas da noite, e esquecer a amargura do horário comercial.
Não me sinto mais cansada do mundo, mas ansiosa por vida.
Não haverá lágrimas ao dormir, no lugar delas, criarei uma bela história me ninando o sono..
E meus dias continuaram sendo salvos:
Enquanto as flores roxas puderem ser colhidas,
Enquanto as palavras erradas puderem ser corrigidas,
Enquanto as pessoas queridas puderem voltar nos feriados,
Enquanto existir reencontro de sorrisos delicados,
Enquanto houver um céu azul adiante e misericordioso.
Agradeço aos santos, super-heróis, aos céus, a Deus, as pessoas de ombros largos.
Obrigada, hoje foi mais um dia salvo!


Barbara Teodosio

quarta-feira, 9 de março de 2011

Autores: Zulmira Ribeiro Tavares

MULHERINHA MULHERANDO


Três coisas nela são frias:
- o dedo dos pés
- a ponta do nariz
- o bico das tetas
...De quente ela traz o hálito
...e ofega.
O que tem de quente
e o que tem de frio
fazem as duas metades da noite.
Ela espanta as dores do mundo
 acende as luzes da cidade.

Zulmira Ribeiro Tavares

sábado, 5 de março de 2011

Conto feminista de uma família real

Conto feminista de uma família real



E o príncipe encantado enfim chegou a torre, após algum tempo no boteco da esquina e em motéis baratos. O seu caráter estava um pouco falho, mas nada que desonrasse sua figura. Em cima da penteadeira da princesa ele viu um bilhete que estava escrito “Volto já, fui ali comprar cigarros...” Ele achou estranho, pois a princesa não costuma fumar, mas como estas mulheres são cheias de inventar moda ele resolveu esperar no sofá enquanto via um jogo de futebol. Ela voltou estava um pouco redonda, mas ele resolveu não comentar, e assim nascia mais uma feliz família real!


Barbara Teodosio

quarta-feira, 2 de março de 2011

Papo de Indio

Lembra do indiozinho abandonado na floresta que era cuidado por animais. Então em um dia comum ele resolveu brincar com as flores e se lambuzou de polén, ficou brilhando, porém a assustadora maribonda ao ver isto falou:


- Você tem piroca ou tem piriquita? o que te disse sobre brincar com as flores e ficar brilhando? isto é coisa de quem tem piriquita! ontem  te vi no banho e você tinha uma piroca, será que ela rachou durante a noite?


O menino não disse nada pois, não sabia usar as palavras e aquele papo de índio havia lhe confundido a cuca. Ele só queria virar flor para que as abelhas pudessem o levar aos poucos até sua colmeia, assim ele poderia se tornar mel e  adoçaria a amargura sua de todo dia.


Texto inspirados em falas reais, em amarguras reais, em frieza real.


Barbara Teodosio

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Conto: As reboladas dos dois mundos...

As reboladas dos dois mundos...



Seus olhos curiosos de criança era o contraposto da sua bunda empinada de adulta, e assim com irreverência no rebolado mostrava sua malícia nas pontuadas batidas da originária música.

Toda molejada formula um pedido: “O que você pode nos ensinar do lugar que você vem?”... (pausa ignorante)... O lugar... Este a qual pertenço, este lugar plaino e quadrado, mostra a clara diferença entre nós duas.

Toda endurecida formulo uma resposta: “Nada.”. Afinal meus conhecimentos apreendidos em livros filosóficos de faz de conta, em nada poderia ser útil na vida daquela menina naquele lugar tão inclinado e redondo.

Ah podemos fazer caras feias pra nos defender dos maus espíritos... Pois estas coisas ruins têm em todos os lugares!
Barbara Teodosio

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Cidade Maravilhosa...com encantos de mil naturezas